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São Tomé é o habitat de duas espécies únicas de caecilianos

 

11 .5. 2021

São Tomé é o habitat de duas espécies únicas de caecilianos (cobras-cega), um grupo de anfíbios vermiformes, sem membros, descobriu uma equipa de investigadores da Academia das Ciências da Califórnia e do Museu de História Natural do Instituto Smithsonian.

As ilhas do Golfo da Guiné abrigam uma abundância de espécies que não se encontram em mais lado nenhum no planeta, mas há mais de 100 anos que os cientistas se interrogavam sobre se uma população de anfíbios sem membros, que vivem no subsolo - conhecidos como caecilianos - encontrados em São Tomé é uma espécie única ou familiar de outras conhecidas.

Agora, uma equipa de investigadores daquelas duas instituições, liderada por Rayna Bell, acaba de descobrir que "não existe uma, mas duas espécies únicas de caecilianos na ilha de São Tomé e Príncipe", de acordo com um comunicado da EurekAlert!, um sistema de distribuição de notícias da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês).

A descobertas, publicadas hoje na Molecular Ecology, uma publicação da Wiley Natural Sciences, sugerem também que a atividade vulcânica pode ter levado à divergência destas duas espécies.

"Para julgar se uma espécie é, de facto, composta de múltiplas linhagens, os cientistas têm de construir um caso", explica Rayna Bell, a autora principal do estudo e curadora da Academia de Herpetologia.

"Um estudo genómico das populações destes anfíbios em toda a ilha permitiu-nos acrescentar uma linha crucial de provas de que a caeciliana de São Tomé é, na realidade, não uma mas duas espécies únicas", afirmou a investigadora.

Inicialmente descritos por cientistas portugueses durante a época colonial, os caecilianos de São Tomé foram mais tarde divididos em duas espécies distintas, com base na sua variação de cor e localização: amarelo-limão no norte da ilha e amarelo com manchas castanhas no sul. Desde então, a investigação tem vindo ora a agrupar ora a dividir as espécies, com base nas provas que iam sucedendo.

Em 2014, um estudo realizado com recurso a ADN mitocondrial permitiu concluir que não só existiam provavelmente duas espécies únicas, mas que estas poderiam estar a reproduzir-se entre si.

Os autores desse trabalho basearam-se numa amostragem de 85 caecilianos de 21 locais de toda a ilha para a obtenção de marcadores genéticos de todo o genoma, que confirmaram com precisão a presença - e cruzamento - das duas espécies.

"Esse estudo foi a primeira pista para desvendar o mistério das caecilianas de São Tomé", explicou Bell. "O nosso estudo fornece mais uma prova da presença de duas espécies separadas, que se cruzam, e quantifica a quantidade de sobreposição - ou hibridação - que ocorre entre elas", acrescentou.

Depois de confirmar a existência de duas espécies diferentes mas cruzadas, a equipa de investigadores começou a olhar para trás no tempo para tentar determinar como as espécies se diferenciaram.

"É notável que existam duas espécies únicas numa ilha tão pequena", sublinhou Lauren Scheinberg, coautora do estudo. "Faz-nos realmente pensar como a seleção natural está a agir para conduzir a especiação".

Os investigadores descobriram que as duas espécies divergiram há cerca de 300.000 anos, um período de tempo que coincide com um surto de atividade vulcânica na ilha e sugerem que os fluxos de lava durante este período podem ter levado à especiação dos caecilianos, dividindo a ilha numa manta de retalhos de habitats mais pequenos com pressões ambientais específicas.

À medida que os fluxos de lava se foram desgastando, resultando num habitat adequado para as caecilianas, as duas espécies voltaram a entrar em contacto e começaram a hibridar-se, apagando as provas da sua separação.

"Estas descobertas são um lembrete importante de que as ilhas não são estáticas", diz Bell. "Embora possam ser pequenas e isoladas, são sistemas dinâmicos que estão a acumular ativamente novas espécies. É também importante para a conservação dos caecilianos de São Tomé sabermos que temos duas espécies, geneticamente e morfologicamente únicas", sublinhou ainda.

Se a evolução destes anfíbios fica um pouco mais clara com este estudo, há ainda muito a aprender sobre os enigmáticos caecilianos de São Tomé. Por exemplo, enquanto a maioria dos caecilianos passa a maior parte do tempo debaixo da terra, os caecilianos de São Tomé podem ser facilmente encontrados no chão da floresta, o que levanta questões sobre como estes anfíbios amarelos brilhantes evitam a predação.

"Estes são talvez os caecilianos mais bem estudados da Terra, por causa da sua acessibilidade e pelo tempo desde que foram descritos pela ciência. No entanto, ainda há muito a aprender sobre eles, desde o seu comportamento de acasalamento até à forma como dissuadem os predadores", diz Bell, sublinhando que, para um biólogo, nada poderia ser "mais excitante do que isto".

Lusa

 

 

 

   

 

 
 
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