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Basta quer ser "alternativa à bipolarização" política em São Tomé e Príncipe

O Movimento Basta é uma das 11 forças políticas na corrida às eleições legislativas de 25 de Setembro em São Tomé e Príncipe. O seu coordenador, Salvador dos Ramos, diz que o Basta quer ser "um grito de alerta" e uma "alternativa à bipolarização" política no país. Questionado sobre quem seria primeiro-ministro em caso de vitória, tendo em conta que o movimento integra, por exemplo, Delfim Neves, Salvador dos Ramos diz que a decisão será tomada pelo movimento e mostra-se disponível para o cargo.

RFI: O Movimento Basta apresenta-se como uma terceira via para a governação do país, alegando que a população está cansada dos partidos políticos. Salvador dos Ramos foi ministro dos Negócios Estrangeiros do governo da ADI e Delfim Neves é um dos políticos com mais responsabilidades num dos maiores partidos do país, o PCD. O que é que este movimento tem de diferente dos partidos tradicionais?

Salvador dos Ramos, Coordenador do Movimento Basta: O Movimento Basta, como o próprio nome indica, é um movimento. Ele vem como um grito de alerta de um grupo de cidadãos são-tomenses residentes no país e na diáspora que decidiram trabalhar no sentido de que, conjuntamente com os são-tomenses, ponhamos um basta em tudo quanto nos vem dividindo, nos vem separando, nos vem prejudicando, enquanto país.

Nós temos quase meio século de existência e o país ainda não conseguiu dar os saltos que todos os são-tomenses gostariam que ele desse. Porquê? Porque para além dos problemas inerentes ao subdesenvolvimento, as dificuldades que o país tem enfrentado nesse domínio, nós temos sido incapazes enquanto são-tomenses de encontrarmos uma via que nos possa pôr no caminho do progresso e do desenvolvimento sustentável. A divisão no seio dos são-tomenses hoje é um factor que bloqueia qualquer tipo de processo de desenvolvimento que queiramos projectar para o país.

Por isso, o Basta é no sentido de nós encontrarmos vias, mecanismos e meios para que todos nós, à volta de um projecto nacional, possamos trabalhar no sentido de construir um São Tomé e Príncipe para todos, sem excepção, para todos. Por isso é que nós dizemos que nós somos diferentes. Queremos ser a alternativa à tendência à bipolarização hoje existente. Desde 2010 até 2022, portanto, nos últimos 12 anos tem havido uma bipolarização política no nosso país. Sai uma força do poder, entra a outra. É a nível dessas duas forças que tem havido alternância e, entretanto, nós continuamos a ter problemas muito sérios, continuamos a estar divididos, continuamos a não encontrar o rumo que nós desejamos para São Tomé e Príncipe.

Diz que os são-tomenses continuam a estar divididos. O Movimento Basta está aberto a integrar coligações pós-eleitorais?

Este assunto é um assunto que será discutido no seu devido tempo. Nós somos um movimento aberto a todos os cidadãos, a todas as sensibilidades, desde que todos os cidadãos, todas as sensibilidades que desejarem entrar para o Basta, sejam capazes de dizer basta a tudo isso que está a acontecer. Quando nós falamos da questão da divisão, nós propusemos, a 7 de Junho - quando fizemos o lançamento do movimento - nós propusemos um pacto de regime a todos os actores políticos são-tomenses porque nós consideramos que é possível através do debate pormos termo a muita coisa que ainda impede o processo de desenvolvimento de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é de todos nós. São Tomé e Príncipe não tem dono. São Tomé e Príncipe pertence a todos os são-tomenses e todos os são-tomenses têm a obrigação de contribuir para que São Tomé e Príncipe possa, de facto, conhecer um novo futuro. E é este o novo futuro que o Basta propõe aos são-tomenses, sendo a alternativa às duas forças que até agora têm dominado o poder.

O Movimento Basta foi fundado por si, mas também integra Delfim Neves, o actual presidente do Parlamento. No caso de vencerem, quem seria primeiro-ministro, Salvador dos Ramos ou Delfim Neves?

O Movimento Basta adoptou uma filosofia de funcionamento. Os nossos órgãos, as nossas decisões são decisões tomadas em colégio. Isto quer dizer que nós não tomamos decisões de forma unilateral. Todos os membros do nosso movimento participam nas grandes decisões que o movimento toma. Portanto, nós temos um colégio. Naturalmente que desde a fundação, desde a constituição do movimento, quem tem estado a coordenar as actividades do movimento sou eu. No entanto, falou de nomes de figuras que aderiram, inspiraram, que contribuíram e que contribuem e que estão disponíveis, determinadas, a levar-nos até à vitória. O Movimento Basta concorre para ganhar e, em caso de vitória - como diz - o Movimento Basta, no seu colégio, decidirá. Se o Movimento Basta decidir que seja o coordenador o Primeiro-Ministro, assim será.

Quais é que são as principais bandeiras da candidatura do Movimento Basta, por exemplo, na saúde?

Nós queremos oferecer as melhores condições da saúde para todos os são-tomenses. Eu vou dizer isto assim porque nós não gostaríamos de antecipar o nosso manifesto eleitoral que será apresentado brevemente à nação e ao eleitorado.

O dia-a-dia dos são-tomenses continua a ser pautado por cortes de energia. Quer-me adiantar como é que pretendem resolver os problemas de abastecimento de energia?

Hoje em dia, não há invenções nas formas de solucionar esses problemas. O país tem seguido uma prática que já vem de trás, vem do período de antes da Independência. No entanto, hoje em dia há outras soluções. Há soluções por via de mini-hídricas, há soluções por via de energias limpas que nesta era da energia limpa, nós temos é que tomar decisões e avançar no sentido de as concretizar. A solução para questões energéticas de São Tomé e Príncipe passa pela tomada de decisões certas, corajosas, no domínio das energias limpas e renováveis e no domínio das mini-hídricas.

Este ano é o ano do primeiro furo petrolífero na Zona Económica Exclusiva. Falou-me em energias limpas. E o petróleo?

Este assunto nós gostaríamos de tratar dele mais tarde. Como eu lhe disse, não gostaríamos de fazer considerações à volta desta problemática neste momento.

E perante este aquecimento global do planeta, em que São Tomé e Príncipe sofre o impacto com situações climáticas extremas, o que é que se pode fazer para mitigar essas consequências?

No nosso entender, embora não sejamos um país poluidor do planeta, devemos contribuir enquanto membro da comunidade internacional para que se consiga não continuar no plano das promessas, mas que se passe à concretização das promessas já feitas ao longo dos últimos anos. O nosso trabalho será a nível interno e no plano internacional para que, de facto, se possa pôr cobro a este flagelo que o mundo conhece hoje que são as mudanças climáticas e que trazem consequências muito nefastas para os países, particularmente países costeiros como São Tomé e Príncipe. 

São Tomé e Príncipe regista uma das mais elevadas taxas de desemprego da África Central. Que política para a criação de emprego e de formação?

Apostaremos fortemente no sector privado. Nós acreditamos que o forte investimento do sector privado na criação de pequenas e médias empresas e no empreendedorismo jovem, e não só, nós daremos respostas à questão do emprego. Nós temos outras propostas, como eu lhe disse, e elas serão conhecidas quando fizermos o lançamento do nosso manifesto eleitoral.

Como é que pretendem resolver a pobreza extrema, numa altura em que a pandemia agravou a crise e atirou muitos para o desemprego e temos a guerra na Ucrânia que provocou uma inflação mundial dos preços?

Os são-tomenses, conjuntamente com os seus dirigentes, têm que apostar no país. Nós temos um país rico, um país que tem muita riqueza na área da agricultura, a nível do mar, nós temos um imenso mar, a economia do mar é uma economia que pode ajudar a alavancar a economia nacional. O sector informal bem enquadrado, estruturado, pode contribuir para reduzir, erradicar, melhor dizendo, a pobreza em São Tomé e Príncipe. Nós temos é que estar juntos, focados num objectivo que é tirar São Tomé e Príncipe da situação em que se encontra.

RFI