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CID-STP quer “renovação política” em São Tomé e Príncipe

O CID-STP é uma das 11 forças políticas na corrida às eleições legislativas de 25 de Setembro em São Tomé e Príncipe. O seu líder, Nelson Carlos Carvalho, apresenta o partido como “uma alternativa”, com o objectivo de avançar para uma “renovação política” em que o combate à corrupção é uma das prioridades.

RFI: Quais são as principais bandeiras da sua candidatura?

Nelson Carlos Carvalho, Líder do CID-STP (Cidadãos Independentes para o Desenvolvimento de São Tomé e Príncipe): A primeira bandeira é o comprometimento com o país no seu todo. Tem uma responsabilidade abrangente ao país em termos dos serviços que beneficiam os cidadãos. O segundo nosso objectivo é o combate à corrupção porque todos os políticos falam no combate à corrupção e o que acontece é que muitos deles, quando estão no poder, a corrupção continua a ser ainda enraizada a nível do país.

Portanto, o CID-STP quer trazer uma outra forma de combater a corrupção de forma transparente e responsável para que o cidadão possa ter a confiança na parte que dirige o país e a parte que dirige o país também terá confiança no povo. Tem que ser uma confiança recíproca para que as coisas realmente funcionem porque um país em que os seus dirigentes têm medo dos seus colaboradores ou do seu povo, automaticamente as coisas não funcionam. O CID quer trazer esta confiança e que nenhuma parte tenha medo da outra.

A outra questão, que é nossa bandeira, é a questão de fortalecimento das empresas públicas e privadas para criarem emprego e garantirem pensões porque o Estado não pode continuar a ser o maior empregador. Enquanto o Estado continuar a ser o maior empregador, o país não desenvolve, o país não cresce porque todas as despesas ficam a nível do Estado, todas as receitas e rendimentos ficam a nível do Estado. Portanto, o Estado tem que separar as coisas. Então, as empresas públicas e privadas têm que assumir o emprego para garantir as pensões em São Tomé e Príncipe.

A outra nossa questão é a luta para mudar o sistema de funcionamento de saúde. O nosso sistema de saúde não funciona, portanto, eu não posso estar num país em que os dirigentes quando têm algum problema de saúde, têm que se dirigir ao exterior a custos elevados, tanto para aqueles que vão de junta médica, como aqueles que vão pelos seus meios próprios.

Precisamente, um dos grandes problemas é o acesso à saúde e aos medicamentos. Como é que vai resolver essa questão?

Bom, essa questão é uma questão simples de resolver. Nós temos um sistema de saúde que é preciso fazer uma - não digo uma revolução - mas é preciso fazer uma mudança do topo para a base.

Primeiro, a questão da saúde: nós não temos um hospital que possa garantir. É preciso construir uma infra-estrutura com capacidade para dar resposta ao desenvolvimento da sociedade. É preciso ter uma estrutura coesa, forte, responsável, transparente.

A questão do medicamento: o medicamento pode ser controlado. Nós temos um sistema em que os medicamentos se vendem na rua, se vendem nos quiosques, se vendem nos restaurantes, etc. É preciso definir que a estrutura que deve vender medicamentos deve ser a farmácia. Todos os outros medicamentos que se vendem de forma aleatória é preciso uma investigação, saber como é que eles entraram no país, quem está a vender, e aí o Estado terá um controlo sério do medicamento.

O que é que acontece? Independentemente de o Estado ter o medicamento nos hospitais, os operadores privados que têm farmácias também vendem os medicamentos e estes medicamentos todos que são vendidos, têm que ter qualidade, certificação, etc. para garantir que realmente o país tenha uma saúde digna e responsável.

Essas questões todas são coisas fáceis de resolver. É preciso é que haja vontade política de o fazer de forma segura, de forma responsável, sobretudo, trazer humildade em termos de organização do país e das suas estruturas governativas.

O país é considerado um dos mais pobres do mundo. Depende da ajuda externa. Que soluções preconiza para reduzir essa dependência e essa pobreza, tanto mais que estamos perante uma inflação de preços mundial provocada pela guerra na Ucrânia e depois de uma crise provocada também pela própria pandemia de Covid-19?

É verdade que São Tomé e Príncipe depende dos parceiros externos. Primeiro, um país em que o Estado é o maior empregador, automaticamente essas dependências continuam porque o Estado tem que ir buscar o dinheiro dos parceiros para pagar o salário, porque os nossos rendimentos internos não são sustentáveis para suprir todas as despesas do país.

Porquê? Porque o Estado é quem se responsabiliza por tudo no país porque ele é o único empregador. Automaticamente, diminuindo o Estado com números de funcionários públicos e a maioria passar para o privado, aí, automaticamente, o privado vai-se responsabilizar da maioria dos empregados que estão na função pública.

Outro aspecto: internamente tem que haver a cultura de trabalho e tem que haver um incentivo da parte do Governo em apoiar e criar também a nível do país, que nós não temos, um banco de investimento, ao qual você pode buscar o investimento e fazer investimento privado-público.

Nós temos um país em que nós temos a agricultura, nós temos a pesca e falamos em turismo. São três pilares fortes que nós temos, mas se nós apostarmos seriamente nos nossos mares, como com embarcação para ir buscar o país para a questão industrial, aí já vamos ter alguns recursos.

Se nós realmente agarrarmos na agricultura, não podemos ficar só na pimenta, no café e no cacau. É preciso partirmos para outros produtos nossos que possam também chegar a outros pontos internacionais e que poderão trazer-nos também algum rendimento. Portanto, um país com 200.000 habitantes, nós conseguimos de facto organizar porque é praticamente uma empresa e São Tomé tem recursos.

São Tomé e Príncipe regista uma das mais elevadas taxas de desemprego da África Central. Que política para a criação de emprego e para a formação?

É abrir também a formação profissional nas áreas de construção civil: pedreiros, carpinteiros, electricistas, ladrilhadores, estucadores. Toda a gente quer ter licenciatura, mestrado, doutoramento. Claro que é verdade que o país precisa desses quadros todos. Mas eu pergunto: eu não posso fazer uma casa a começar do telhado. Tenho que fazer uma casa a começar da base, dos pilares. Portanto, não havendo uma formação profissional que garanta o primeiro emprego, automaticamente, o país não vai conseguir avançar.

O Governo cessante era composto por uma nova maioria no Parlamento. Está também disposto a alianças?

Eu acho que sim. Nós vamos concorrer a essas eleições. Imaginemos que o CID, por exemplo, não tem a maioria absoluta e tem um número de deputados. Bom, não é preciso o CID ir para o governo. Nós podemos dar sustentabilidade parlamentar ao partido que tiver maior número de mandatos para formar o governo e nós estaremos no Parlamento a dar a nossa contribuição de forma positiva porque a oposição também governa. Governa como? Apresentando os projectos, fazendo as críticas construtivas, apresentando as propostas para serem discutidas em benefício da população.

Agora, eu não posso ser um opositor e estar na Assembleia contra quem está a dirigir só porque estou na oposição. Não. Eu estou lá a contribuir de forma positiva para governar o país e aí estarei de acordo com uma aliança, sim, mas aliança parlamentar para funcionamento do país, não uma aliança para governar.

O CID não irá participar numa aliança governativa, mas numa aliança parlamentar nós estaremos disponíveis para que o país funcione com as nossas ideias, com as nossas propostas de projectos e seriam analisados e discutidos na Assembleia Nacional e encontrar uma forma em que haja um projecto que possa beneficiar todo o colectivo, onde os deputados têm que ter uma consciência colectiva e pensar no bem comum para todos os são-tomenses.

Em todas as eleições em São Tomé e Príncipe se fala no fenómeno do banho, na compra de consciência dos eleitores. Como é que financiou a campanha? Como é que se evita o banho?

Nós, por exemplo, da parte do CID-STP, estamos a fazer as reuniões de sensibilização e a passar as informações relativamente aos nossos projectos. Nós não estamos a dar a ninguém nenhum banho. O que é que é o banho em São Tomé e Príncipe? Há duas formas de fazer o banho em São Tomé e Príncipe. Uma forma de fazer o banho é quando vão para reuniões dão 100, 50 dobras a cada um que está na reunião. A outra forma de banho é quando vão no dia das eleições, em que pagam as pessoas para irem votar. Eu contrario totalmente isso. Por isso, é que o CID-STP, como nós falamos no nosso slogan, vamos avançar numa renovação política. Renovação política.

Nós não podemos ter o costume dos partidos tradicionais, pagando às pessoas para votar, pagando às pessoas para assistir às nossas reuniões. E nós, quando marcamos as reuniões, nós fazemos um pré-aviso: vamos fazer a reunião, mas o CID-STP não vai distribuir nenhum dinheiro à população.

Primeiro, todos os partidos políticos que vão dar 50 dobras, 100 dobras ou 200 dobras aos eleitores são os partidos políticos que estão comprometidos com a corrupção em São Tomé e Príncipe. São as pessoas que devem ao Estado, devem muito ao fisco, são as que têm problemas nos tribunais, as que levaram bancos às falências, estão comprometidas para pagar aos bancos, portanto, têm que pagar para conseguirem estar no poder, para terem manobra para conseguirem saldar as suas dívidas.

No CID-STP, nem o líder do CID nem os outros elementos do CID não estamos comprometidos com nenhum desses três planos: a finança, os tribunais, os bancos. Portanto, nós estamos à vontade de fazer uma política clara e falar ao povo de São Tomé e Príncipe que nós somos uma alternativa.

Estas eleições têm, pela primeira vez, a participação dos são-tomenses residentes na diáspora que vão poder eleger e serem eleitos. Você também foi emigrante. Que mensagem é que deixa aos eleitores em geral e aos que vivem lá fora rumo estas eleições?

No nosso programa eleitoral, nós queremos que a diáspora faça parte integrante na governação do país, de forma mais inclusiva, porque a diáspora tem um peso muito forte e que possa contribuir. Em termos da visão para quem vive, por exemplo, em França e noutros países, têm uma visão muito alargada do desenvolvimento daqueles países que pode ajudar muito ao desenvolvimento de São Tomé e Príncipe.

O que eu digo a todos os eleitores são-tomenses que estão na diáspora, e também em São Tomé e Príncipe, é que façam uma apreciação dos projectos de cada partido político e depois tomem uma decisão, para não tomarem a decisão pelo facto de ser família, ser amigo ou aquele que deu um bilhete de passagem, deu uma motorizada ou se calhar abasteceu um quiosque. Mas sim que analisem as figuras dos líderes dos partidos que possam ser o possível primeiro-ministro, mas gente com perfil, com carácter, com seriedade, que se comprometa realmente com acções colectivas para erguer São Tomé e Príncipe. RFI