por Pale Press
No coração das Fallas valencianas, uma festa profundamente
enraizada na tradição espanhola, algo extraordinário aconteceu este ano: uma
jovem de Annobonesa participou ativamente como fallera, vestindo
orgulhosamente o traje tradicional que distingue as mulheres nesta festa. Um
fato que, além do anedótico, marca um poderoso símbolo de integração e
respeito cultural.
Vestir-se como uma fallera não é uma tarefa fácil. Trata-se
de carregar uma herança centenária, com trajes elaborados, penteados
característicos e uma série de rituais que fazem desse papel algo muito
especial e reservado. Não é comum ver meninas africanas nesse papel, mas o caso
dessa jovem de Annobonesa mostra que a convivência e a aceitação não são
apenas possíveis, mas reais quando cultivadas com respeito e empatia.
Ela não é estranha à cultura espanhola. Nascida e criada na
Espanha, ela cresceu entre as tradições valencianas enquanto ainda carregava a
identidade de sua cidade, Annobón, em seu sangue. Sua participação nas Fallas
mostra que o duplo pertencimento não é um obstáculo, mas uma riqueza, e
que quando uma sociedade abre os braços, novas formas de cidadania e afeto
florescem.
Este gesto torna-se ainda mais forte se for contrastado com
o que acontece hoje em Annobón, a sua terra de origem. Enquanto a diversidade
cultural é celebrada em Valência, o regime de Teodoro Obiang Nguema
Mbasogo na Guiné Equatorial reprime brutalmente qualquer expressão do povo
annoboneso, nega seus direitos e criminaliza sua identidade. As meninas de
Annobón não podem brincar livremente, sonhar em paz ou participar de sua
própria cultura sem medo da violência e abuso do Estado.
Por isso, o que aconteceu em Valência é mais do que uma bela
imagem: é um cartão postal do futuro possível, onde a identidade
annobonesiana não é perseguida, mas celebrada. Onde uma garota pode ser uma
fallera sem deixar de ser uma ilhéu. E onde o respeito mútuo constrói uma
sociedade melhor, muito diferente daquela imposta pelo medo e pelo silêncio.
